Se eu tivesse estudado mais...
Há uns dias, fui em reportagem para a inauguração das novas instalações da Y-Dreams.
Ministros e empresários ouviam os discursos de apresentação da empresa.
Nos quadros superiores da empresa estão pessoas jovens, todas com cursos tirados no estrangeiro. São investigadores, gestores, marketeers.
Uma dessas pessoas, uma rapariga nova, cujo apelido inclui “doutorada na Universidade de Virgínia Tech., nos Estados Unidos”, foi uma das oradoras.
Ahhhhh!!!! Então assim sendo vou ouvir com mais atenção - pensei eu.
A jovem começa a falar com um sotaque daqueles… como é que eu vou pôr isto para que entendam melhor… olha, já sei, como o Futre duas semanas depois de ter ido para Espanha jogar. Só que neste caso, o sotaque é inglês, claro. Mais chique.
Ainda com maior entusiasmo e expectativa, ansiava por ouvir as sábias palavras desta jovem responsável pelo departamento de… ahhh, não sei. Não cheguei a perceber. Mas era doutorada pela Virgínia Tech!
Começo logo a ter problemas em seguir o raciocínio e a apresentação da jovem promissora quando o discurso inclui “palavras” como CEO (esta ainda apanhei), CTA, SAT, MIT, PCT… confesso que siglas, enfim, só mesmo as históricas ou políticas. No mundo empresarial é o mesmo que me explicarem ao pormenor um hardware…
E já eu estava à beira da apneia, com a explicação detalhada do “Invisible Networking” (em que fez questão de enumerar os nomes de todas as empresas incluídas na rede para quem trabalhavam) da Y-Dreams, quando ela exclama no auge do entusiasmo que só ela tinha: “Porque permite-nos investir em sectores muito interessantes e com grande potencial de negócio”!
Ah, abri logo a pestana! Deixa ver se tiro aqui alguma ideia para, de jornalista, me tornar numa empresária de sucesso- pensei eu.
E eis alguns exemplos geniais, que justificam valer sempre a pena estudar no estrangeiro.
Diz ela:
“O mundo das embalagens é fascinante! Está em crescimento e vale a pena apostar!(…)” Oi? Olha, embalagens… fascinante de facto… que me sugeres, jovem? “(…) já imaginaram por exemplo, abrirem o frigorifico e o pacote ter a data de validade à vista?!(…)” Hein??? Oi?? Olhei à minha volta, mas mantinham-se todos com um ar interessado nesta ideia BRILHANTE! Foi ai que comentei que tinha sérias dúvidas que ela soubesse o significado da palavra "cozinha"… e eis que, como se me tivesse ouvido, ela responde “e não seria igualmente genial que o pacote apitasse a avisar que a data expirou… eu não sei, mas a mim dar-me-ia (julgo que ela não usou esta forma verbal correcta, mas recuso-me a estragar o meu texto) imenso jeito! (…)”
É giro, sobretudo de manhã, ensonada, a querer despachar no silêncio, abrir o frigorifico e… CHINFRINEIRA DE APITOS! Ahhhh que boas são as tecnologias! E úteis! Gastar dinheiro em coisas úteis. Gosto.
Mas se pensam que ela ficou por aqui, nãooooo.
“Outro sector interessante é o dos média (…)” ah, aqui dizia-me respeito. Deixa la ver o que diz a senhora doutora da Virgínia Tech… “(…) já pensaram criar um jornal, mas em vez de ser de papel, é no computador, mas com páginas a imitar o papel, mas não sendo papel porque não é feito de celulose (…)”
Ponto 1- As pessoas que têm muitos estudos falam assim. Eu quando vou buscar uma resma de papel para a impressora e não encontro, pergunto bem alto: “Alguém viu a resma de várias camadas de celulose?” Porque é mais prático.
Ponto 2- Qual a utilidade de gastar imenso dinheiro num projecto que visa colocar on-line um jornal diário, mas com efeito como se fosse de papel? É assim tão inovador? Pode ser só de mim, posso ser esquisita, mas é interessante para? Nada. É útil para? Ninguém. É prático? Não. É giro?? Não. Pronto, estamos entendidos.
Mas ela prossegue.
“E há também outro sector que vale a pena pensar e investir. Neste caso, ligado à celulose. Já imaginaram termos uma folha em branco, em que se quiséssemos linhas, bastaria carregar num botão do lado direito da folha e apareceriam as linhas na folha? E se quiséssemos uma calculador, bastaria carregar no botão do lado esquerdo da folha para aparecer a calculadora?”
Levantei-me e sai da sala.
Mas se calhar sou só eu que não estudei na Virgínia Tech…
Ministros e empresários ouviam os discursos de apresentação da empresa.
Nos quadros superiores da empresa estão pessoas jovens, todas com cursos tirados no estrangeiro. São investigadores, gestores, marketeers.
Uma dessas pessoas, uma rapariga nova, cujo apelido inclui “doutorada na Universidade de Virgínia Tech., nos Estados Unidos”, foi uma das oradoras.
Ahhhhh!!!! Então assim sendo vou ouvir com mais atenção - pensei eu.
A jovem começa a falar com um sotaque daqueles… como é que eu vou pôr isto para que entendam melhor… olha, já sei, como o Futre duas semanas depois de ter ido para Espanha jogar. Só que neste caso, o sotaque é inglês, claro. Mais chique.
Ainda com maior entusiasmo e expectativa, ansiava por ouvir as sábias palavras desta jovem responsável pelo departamento de… ahhh, não sei. Não cheguei a perceber. Mas era doutorada pela Virgínia Tech!
Começo logo a ter problemas em seguir o raciocínio e a apresentação da jovem promissora quando o discurso inclui “palavras” como CEO (esta ainda apanhei), CTA, SAT, MIT, PCT… confesso que siglas, enfim, só mesmo as históricas ou políticas. No mundo empresarial é o mesmo que me explicarem ao pormenor um hardware…
E já eu estava à beira da apneia, com a explicação detalhada do “Invisible Networking” (em que fez questão de enumerar os nomes de todas as empresas incluídas na rede para quem trabalhavam) da Y-Dreams, quando ela exclama no auge do entusiasmo que só ela tinha: “Porque permite-nos investir em sectores muito interessantes e com grande potencial de negócio”!
Ah, abri logo a pestana! Deixa ver se tiro aqui alguma ideia para, de jornalista, me tornar numa empresária de sucesso- pensei eu.
E eis alguns exemplos geniais, que justificam valer sempre a pena estudar no estrangeiro.
Diz ela:
“O mundo das embalagens é fascinante! Está em crescimento e vale a pena apostar!(…)” Oi? Olha, embalagens… fascinante de facto… que me sugeres, jovem? “(…) já imaginaram por exemplo, abrirem o frigorifico e o pacote ter a data de validade à vista?!(…)” Hein??? Oi?? Olhei à minha volta, mas mantinham-se todos com um ar interessado nesta ideia BRILHANTE! Foi ai que comentei que tinha sérias dúvidas que ela soubesse o significado da palavra "cozinha"… e eis que, como se me tivesse ouvido, ela responde “e não seria igualmente genial que o pacote apitasse a avisar que a data expirou… eu não sei, mas a mim dar-me-ia (julgo que ela não usou esta forma verbal correcta, mas recuso-me a estragar o meu texto) imenso jeito! (…)”
É giro, sobretudo de manhã, ensonada, a querer despachar no silêncio, abrir o frigorifico e… CHINFRINEIRA DE APITOS! Ahhhh que boas são as tecnologias! E úteis! Gastar dinheiro em coisas úteis. Gosto.
Mas se pensam que ela ficou por aqui, nãooooo.
“Outro sector interessante é o dos média (…)” ah, aqui dizia-me respeito. Deixa la ver o que diz a senhora doutora da Virgínia Tech… “(…) já pensaram criar um jornal, mas em vez de ser de papel, é no computador, mas com páginas a imitar o papel, mas não sendo papel porque não é feito de celulose (…)”
Ponto 1- As pessoas que têm muitos estudos falam assim. Eu quando vou buscar uma resma de papel para a impressora e não encontro, pergunto bem alto: “Alguém viu a resma de várias camadas de celulose?” Porque é mais prático.
Ponto 2- Qual a utilidade de gastar imenso dinheiro num projecto que visa colocar on-line um jornal diário, mas com efeito como se fosse de papel? É assim tão inovador? Pode ser só de mim, posso ser esquisita, mas é interessante para? Nada. É útil para? Ninguém. É prático? Não. É giro?? Não. Pronto, estamos entendidos.
Mas ela prossegue.
“E há também outro sector que vale a pena pensar e investir. Neste caso, ligado à celulose. Já imaginaram termos uma folha em branco, em que se quiséssemos linhas, bastaria carregar num botão do lado direito da folha e apareceriam as linhas na folha? E se quiséssemos uma calculador, bastaria carregar no botão do lado esquerdo da folha para aparecer a calculadora?”
Levantei-me e sai da sala.
Mas se calhar sou só eu que não estudei na Virgínia Tech…

2 Comments:
Estou inteiramente de acordo: se você tivesse estudado mais!!!
Quer-me parecer que fazer a reportagem da inauguração da invisible networking a fez sentir um pouco como ”peixe fora de água”… Talvez o meio empresarial e a inovação tecnológica não sejam exactamente “your cup of tea”. Senão, vejamos (e transcrevo entre aspas algumas das suas afirmações):
•“…siglas, enfim, só mesmo as históricas ou políticas. No mundo empresarial, é o mesmo que me explicarem ao pormenor um hardware…” - É expectável que um jornalista que vá fazer uma reportagem sobre um acontecimento no mundo empresarial esteja familiarizado com os termos e as siglas habitualmente usados nesse ambiente. Está a imaginar o Ricardo Salgado ou o Belmiro de Azevedo a dizer repetidamente Resultados Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortizações? Claro que não!!!. Iriam referir o EBITDA (muito provavelmente, com o objectivo de a aborrecerem e forçarem a levantar-se e sair da sala...)
•“…É giro, sobretudo de manhã, ensonada, a querer despachar no silêncio, abrir o frigorífico e… chinfrineira de apitos! Ahhhh que boas que são as tecnologias! E úteis” Gastar dinheiro em coisas úteis. Gosto.” – Eu também gosto. Gosto de imaginar um invisual (ensonado ou não), ou um idoso com dificuldades de visão, a abrir o frigorífico ou a entrar na despensa e não necessitar de terceiros para ter informação sobre a validade dos produtos que lá tem guardados!!!... Ou no seu mundo os invisuais e os idosos não têm direito a frigorífico ou despensa?
•“…qual utilidade de… um projecto que visa colocar on-line um jornal diário, mas com efeito como se fosse de papel? É assim tão inovador?... É interessante para? Nada. É útil para? Ninguém. É prático? Não. É giro?? Não. Pronto, estamos entendidos…” – Pois estamos!!! Estamos entendidos que não fez, previamente, o seu trabalho de casa, não se informou sobre os avanços tecnológicos no campo da media nem se preparou para entender e, posteriormente, transmitir aos seus leitores (coitados!) “what else is new” no campo da I&D (perdão, da investigação e desenvolvimento). Permita-me que lhe aconselhe a leitura de um artigo publicado recentemente (06/09/2008) na Newsweek, intitulado “A no-paper newspaper” (http://www.newsweek.com/id/157580). Pelos vistos, o entusiasmo pelo desenvolvimento deste tipo de produto não é apanágio exclusivo da “jovem doutorada na Universidade de Virgínia Tech” (e da equipa da YDreams).
•“Mas se calhar sou só eu que não estudei na Virgínia Tech…” – Será que detecto aqui um “cheirinho” de amargura ou ciúme?... Não me diga que a oradora, a tal “rapariga nova cujo apelido inclui doutorada na Universidade de Virgínia Tech”, para além de inteligente, também é bonita e elegante?... É que nós, as mulheres, temos muita dificuldade em perdoar isso, não temos?!...
E.T. (outra sigla?!!!): Eu tenho a mania de fazer o trabalho de casa; é um “trauma” de infância. Por isso, li diversos posts do seu blog. Alguns com interesse, outros nem tanto. Não encontrei anteriores incursões no “mundo empresarial” – o que talvez explique a sua aversão ao tema da reportagem -, a não ser algumas observações de gosto duvidoso sobre as tendências sexuais da facturação do gás. E há diversas “gazetas” ao trabalho de casa. Quer um exemplo? Leia todas as referências constantes do dicionário de português sobre a palavra “comer”: não é, apenas, um verbo transitivo, mas, também, verbo intransitivo, verbo reflexivo e… substantivo masculino, pelo que não será muito adequado atribuir à expressão “o comer está na mesa” o carácter emético que tanto a angustiou…
Será que a entidade jornalistica que emprega esta senhora, tem a minima ideia do tipo de textos ressabiados que ela anda a publicar? Textos que relatam episodios de supostas coberturas "profissionais" feitas em nome da instituição? O displante é total! A ignorância é gritante! Afinal, o pais real não está no portugal rural. Já invadiu as redacções de radios e jornais da capital!
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